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Orquídeas e suas anomalias florais

Atualizado: 9 de out. de 2021

Por Gilvan Serafim Filho¹ e Carlos Jorge Souza Filho².

Matéria publicada (versão impressa) no Boletim CAOB nº 123, Jul. - Set./2021.


Com certeza você já deve ter ouvido falar nos termos zigomorfa e actinomorfa (não são anomalias), ainda, em pelória, trilabelo e labeloide (esses sim, dizem respeito as anomalias florais)... Mas será que entende os conceitos e sabe reconhecê-los nas flores de suas orquídeas, caso ocorram? Nessa leitura, você vai aprender conceitos e reconhecer essas características, que podem tornar suas orquídeas, verdadeiras raridades.

 

As anomalias florais são todas aquelas transformações que apresentam diferenças quando comparadas com flores típicas da mesma espécie, e sim, toda anomalia floral vai estar relacionada a forma com a qual o colorido se apresenta nas flores (não confundir com variedade, por exemplo: alba, coerulea, coerulense, viridis, flavens), e também nas alterações das formas dos verticilos florais (sépalas, pétalas e labelo). A planta portadora da anomalia floral, não poderá ser classificada como variedade como já foi dito, em razão das florações geralmente instáveis, no entanto, quando essas anomalias florais são fixas, podem ser transmitidas e neste caso, podem receber uma classificação com base nas características que apresentam.


Os primeiros registros de anomalias florais em orquídeas foram publicados em 1883, com a obra intitulada "Anomalias florais ou pelória" em Structure des Orchidées por João Barbosa Rodrigues. As anomalias eram entendidas como casos de transformações monstruosas, não raras na família Orchidaceae A. Juss., ocorrendo especialmente nos gêneros: Cattleya Lindl., Laelia Lindl. e Miltonia Lindl., sendo ainda observadas nos gêneros de Oncidium Sw. e em Catasetum Rich. ex Kunth.

 

Cattleya intermedia Grah. f. trilabelo. Foto e cultivo: Erick Macedo - Rio das Ostras/RJ.

 

Afinal, o que são flores zigomorfas e actinomorfas? Bom, são termos botânicos para dividir as plantas em grupos florais (existem outros, mas para entender as anomalias florais em orquídeas, esses dois bastam). São conceitos simples: teremos as flores cuja simetria floral é bilateral, dividida em duas partes iguais, são as zigomorfas; já as actinomorfas são as flores que apresentam simetria radial, ou seja, mais de dois planos de simetria, conforme mostra esquema a seguir. No caso da família Orchidaceae, todas as flores são zigomorfas em condições naturais.


 

O termo pelória ou pelórica faz referência as anomalias florais nas orquídeas, que pode ser qualquer anomalia, não caracteriza as formas nem as variações distintas das espécies típicas e tipo. Qualquer orquídea em flor que apresente alguma anomalia floral poder ser chamada de pelórica, ou simplesmente pelória. Nem todas as anomalias possuem um termo específico, para muitas condições são apenas "flores anômalas", em outras, dependerá se a anomalia ocorre no cálice (sépalas), ou na corola (pétalas). Vale salientar que o labelo é uma pétala modificada em volta de uma coluna (órgão carnudo e claviforme que se projeta do centro da flor, resultado da fusão dos órgãos masculinos chamados de estames e femininos chamados de carpelos).

 
 

A flor pelórica que vemos na imagem ao lado é denominada trilabelo, anomalia que ocorre nas pétalas, são pseudo-labelos, possuem aproximadamente a mesma coloração e forma do labelo verdadeiro, no entanto são falsos, o labelo verdadeiro é a pétala dorsal que sofre uma torção de 180º no botão floral, conhecido como ressupinação e posiciona-se numa posição ventral, encontra-se em posição oposta aos órgãos reprodutivos (coluna), conferindo grande importância no processo de polinização das orquídeas.

Cattleya harrisoniana Batem. ex Lindl. e Cattleya walqueriana Gardner (forma trilabelo). Fotos e cultivo: Adalmir Horstmann (Associação Orquidófila Vale das Águas/ASSOVA), Santo Amaro da Imperatriz/SC.

Variedades de Cattleya tigrina A. Rich. (ambas com a forma trilabelo).

Fotos e cultivo: Orquidário Paulista - gentileza de Shirlei Rocha - São Paulo/SP.

 

A anomalia labeloide é caracterizada quando as cores do labelo se apresentam nas sépalas laterais (inferiores), podendo ser observado um alargamento na sépala dorsal (superior). Essa anomalia não é tão comum quanto a trilabelo.

Cattleya labiata Lindl. f. labeloide. Fotos e cultivo: Erick Macedo - Rio das Ostras/RJ.

Cattleya labiata f. labeloide.

Foto e cultivo: Orquidário Wolf - gentileza de Thiago Wolf - Canoas/RS.

 

Tanto a denominação trilabelo quanto a labeloide são termos que atendem a orquidofilia, são considerados orquiculturais, por adequação dos orquidófilos sobre o que entendem a respeito da horticultura (técnicas diversas sobre produção, práticas de cultivo, propagação e observações pertinentes), voltados para o universo do cultivo de orquídeas. Outras anomalias menos frequentes podem ser observadas em flores de orquídeas, inclusive, há flores cuja anomalia se enquadra em termos botânicos, como gamossépala (quando as sépalas são unidas ou soldadas entre si); gamopétala (quando as pétalas são unidas ou soldadas ente si) e homoclamídea (flores que apresentam sépalas e pétalas muito semelhantes, confundindo a ideia de cálice e corola). Há ainda aquelas anomalias que não se enquadram em um termo específico, cabendo chamar de flor pelórica ou pelória.

Flor pelórica de Cattleya walkeriana (anomalia apresentando 5 sépalas, 2 pétalas e 1 labelo, seus verticilos florais apresentam desde um flameado até traços leves e mais definidos). Foto e cultivo: João Pedro Gazel/Ricardo Arroyo - Rio Verde/GO.

 

A Rhyncholaeliocattleya Angkinantana S.Sanimthong RHS registered 1985, sinônimo de Brassolaeliocattleya Angkinantana S.Sanimthong RHS synonym 1985, é uma planta que nunca flore igual, ainda que as flores sejam da mesma inflorescência, apresentam diferentes padrões de cores.

Rlc. Angkinantana. Fotos e cultivo: Leonardo Abdalla - Rio Claro/SP.

 

A seguir, uma sequência de plantas que apresentam flores pelóricas, ou seja, defeitos nas sépalas, pétalas e até labelo, em alguns casos dá para observar anomalia na coluna, entendida como uma estrutura que reúne os órgãos masculinos e femininos, também conhecidos como antera e estigma.

Flores de Rhyncholaeliocattleya (Blc.) Willy's Show W. Baden RHS registered 2020 (Florações com anomalias em anos distintos). Fotos e cultivo: Silvana Bohos - Resistencia/Chaco na Argentina.

1. Cattleya labiata var. alba. Foto e cultivo: Ovídio Lima/APO - João Pessoa/PB.

2. ×Potinara 'Maria Eduarda' - Foto e cultivo: Roseli Franco - Macaé/RJ.

Cattleya walkeriana e Cattleya schilleriana Rchb.f.

Fotos e cultivo: Silvia Chacha - Campo Grande/MS.

Cattleya walkeriana e Rhyncholaeliocattleya Durigan J. Durigan RHS registered 2005. Fotos e cultivo: Janete Lage (Grupo de Orquidófilos Paraopeba Caetanópolis) - Paraopeba/MG.

 

Como foi dito, algumas anomalias chamam atenção, difícil de descrever e enquadrar em algum termo, como é o caso desse híbrido Rhyncholaeliocattleya (Blc.) Durigan × Cattleya Pão de Açúcar. Seguem fotos de uma floração típica e florações pelóricas da mesma planta.

Rlc. Durigan × C. Pão de açúcar. Fotos e cultivo: Rodrigo Schuler - Macaé/RJ.

 

Revisando os termos, temos: Zigomorfa: flores cuja simetria floral é bilateral, dividida unicamente em duas partes iguais, ou dois planos de simetria. Actinomorfa: flores que apresentam simetria radial, pois possuem mais de dois planos de simetria. Pelórica ou Pelória: anomalias florais, termo generalista, muito comum nas orquídeas. Trilabelo: anomalia que ocorre nas pétalas, são pseudo-labelos, possuem aproximadamente a mesma coloração e forma do verdadeiro labelo. Labeloide: anomalia caracterizada quando as cores do labelo se apresentam nas sépalas inferiores, podendo ser observado um alargamento na sépala superior. Gamossépala: quando as sépalas são unidas ou soldadas entre si. Gamopétala: quando as pétalas são unidas ou soldadas ente si. Homoclamídea: quando as flores apresentam sépalas e pétalas muito semelhantes, confundindo a ideia de cálice e corola.

Cattleya loddigesii Lindl. f. trilabelo.

Foto e cultivo: Rodrigo Schuler - Macaé/RJ.

 

Referências


Barbosa Rodrigues, J. Plantas novas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro I. (Descritas, classificadas e desenhadas por J. Barbosa Rodrigues, diretor do mesmo jardim). Rio de Janeiro: Typ. G. Leuzinger & Filhos, 1891.


Barros, F. Novas combinações, novas ocorrências e notas sobre espécies pouco conhecidas para as orquídeas do Brasil. Acta Botânica Brasílica, vol. 08, n.01, 1994.


Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2020.

Disponível em: < http://floradobrasil.jbrj.gov.br/ >. Acesso em: 19 set. 2021.


Gonçalves, E. G.; Lorenzi, H. Morfologia vegetal: organografia e dicionário ilustrado de morfologia das plantas vasculares. Ed. Plantarum, Nova Odessa, São Paulo, 2007.


Hunhoff, V. L.; Silva, C. A.; Lage, L. A.; Krause, W. K.; Palú, E. G. Biologia, morfologia floral e potencial ornamental de Cyrtopodium saintlegerianum (Orchidaceae). Revista Agro@mbiente On-line, v. 10, n. 4, p. 358-363, 2017.


Lorenzi, H.; Gonçalves, E. G. Morfologia vegetal: organografia e dicionário ilustrado de morfologia das plantas vasculares. São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2007.


Orchid Roots, 2021. Disponível em: < https://www.orchidroots.com/?role=pub >. Acesso em: 19 set. 2021.


Pansarin, E. R. Biologia reprodutiva e morfologia floral de espécies de Orchidaceae em diferentes ambientes no Estado de São Paulo. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Biologia, Campinas, SP, 2000.


Raven, P. H.; Evert, R. F.; Eichhorn, S. E. Biologia vegetal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.


Silva, V. M. Educando homens para educar plantas [manuscrito]: Orquidofilia e ciência no Brasil. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências, 2013.


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¹Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pernambuco/UNICAP; curso de mestrado em ecologia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco/UFRPE; curso de especialização em Perícia e Auditoria Ambiental pela Faculdade Frassinetti do Recife/FAFIRE; doutorando no Programa de Pós-Grduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente/PRODEMA da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE; Orquidólogo e Orquidófilo na Associação Orquidófila de Pernambuco/ASSOPE.


²Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco/UFRPE; Professor de Ciências e Biologia; Orquidólogo e Orquidófilo na Associação Orquidófila de Pernambuco/ASSOPE.

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2 Comments


Gerlane Celina
Gerlane Celina
Apr 01, 2020

Conteúdo impressionante! Amei! 👏

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Janete Lage
Janete Lage
Mar 30, 2020

Muito boa a matéria parabéns

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